Eren, o Jesus gnóstico de Shingeki no Kyojin.



Em 08 de novembro de 2015 comecei a publicar uma tradução própria de uma série de dois artigos que abordavam a influência da filosofia e misticismo gnósticos no universo dos animes/mangás, com o título "Gnósticos Sonham Com Robôs Gigantes? O crescimento do gnosticismo nos animes japoneses" (Parte 1 e parte 2). Pois bem, na época recebi sugestões (e prometi) abordar um pouco mais do tema futuramente. Pois bem, hoje trago a tradução de outro artigo sobre a temática que achei muito interessante: Seria Eren Jaegar uma representação de Cristo dentro do universo de Shingeki no Kyojin?


Antes de apresentar o artigo propriamente dito, algumas considerações. Todo mundo deve conhecer Shingeki no Kyojin, mesmo que nunca tenha assistido. É um dos animes mais famosos dos últimos anos, contando com uma legião de fãs ao redor do mundo. Se é um anime bom ou ruim, não me cabe neste artigo aprofundar o tema, mas que mesmo com os seus defeitos, possui várias qualidades, além de uma premissa e temática bastante interessantes.

Segundo, muitos devem se perguntar depois de ler o artigo se Hajime Isayama tinha o interesse de inserir uma temática "mística", mais especificamente gnóstica, dentro de sua obra? É uma pergunta de difícil reposta. Mesmo que ainda não tenhamos a resposta, podemos levantar alguns pontos. Há os autores que inserem este tipo de conteúdo esotérico propositalmente em suas obras, como Hiroki Endou em Eden: It's an Endless World!, onde há claramente uma série de elementos e nomenclaturas cabalísticas. Outro exemplo é Evangelion, que apresenta uma simbologia mística de forma categórica, com a representação frequente da Árvore da Vida.



Há outras obras que a simbologia é velada, desta forma fica difícil chegar à conclusão de que foi algo proposital do autor ou algo ocasional. Pode-se pensar que se estes elementos que são apresentados de forma espontânea, sem premeditação, perderiam seu valor como símbolos, tratando-se de meras especulações dos fãs. Eu sou de opinião contrária. Vejo que os símbolos existem independentemente da vontade do criador de uma obra. Os símbolos já estão lá, apenas esperando serem usados. Quando você cria uma personagem no qual o destino de um mundo está em suas mãos, nele se afigura o símbolo, ou mais especificamente, o arquétipo do salvador.

Bom, o artigo que vou apresentar foi escrito por Brett Strohl pra o site http://thegodabovegod.com/. (Link para o original no final do artigo)

O Jesus gnóstico de Shingeki no Kyojin

O que primeiro me atraiu na obra-prima de Hajime Isayama, Ataque dos Titãs, foi o incrivelmente sincero desespero e fúria do personagem principal Eren Jaeger, que em um momento crucial de sua transformação, é descrito como: "A manifestação da raiva da humanidade". A série, que tem sido apresentada como o "Walking Dead" do Japão, pode parecer difícil de classificar, porque à primeira vista a série pode simplesmente parecer uma amálgama de metáforas padrão de um universo de fantasia/horror de anime, incluindo: Monstros de duelo gigantes, que são muito semelhantes aos "mechas" (os robôs de combate que são incrivelmente comuns), um elenco enorme de personagens, ação serializada, violência gráfica, visão de mundo distópica, etc. No entanto, ao contrário de grande parte da cultura pop moderna incrivelmente descartável, Shingeki no Kyojin parece ter tocado um verdadeiro nervo dos telespectadores, tanto no Japão e em todo o resto do mundo. Eu pessoalmente acredito que muito do motivo para esta popularidade pode ser encontrado bem abaixo da superfície da apresentação de apenas outro tipo de apocalipse, só que desta vez através de pessoas nuas gigantes.



Por um lado, muitos espectadores já podem compartilhar a raiva de Eren em viver em um mundo profundamente corrupto, a ponto de sofrer o peso esmagador do colapso lento da sociedade moderna, provavelmente sentem a inevitabilidade tão quanto os personagens de Ataque dos Titãs assistindo a todos os seus amigos e amados serem comidos pela horda imparável de titãs. No entanto, o que a maioria dos telespectadores não reconhecerá é que Shingeki no Kyojin é definido dentro de um quadro profundamente religioso, como uma série de símbolos e temas espirituais estão enterrados dentro da história, não apenas para dar-lhe profundidade intelectual, mas com a intenção de desencadear uma conexão direta com a mente inconsciente do espectador. Além de ser apenas uma poderosa obra de arte, Ataque dos Titãs parece projetado para impactar o espectador com todo o peso de arquétipos e símbolos muito poderosos que provavelmente já estão embutidos profundamente dentro do inconsciente coletivo da humanidade.

Isso pode vir como uma verdadeira surpresa para os fãs do show, pois superficialmente a história não parece possuir qualquer contexto religioso. Embora exista o culto de "Adoradores da Muralha", à primeira vista isso simplesmente parece ser apenas um golpe superficial de extremismo religioso. No entanto, depois que comecei a olhar mais de perto o anime e o mangá, comecei a perceber que a história é realmente definida completamente dentro do quadro do gnosticismo cristão, e há muitas alusões a ele, que vão muito além de coincidência.

Dualismo Gnóstico

No Gnosticismo, o mundo em que vivemos é ilusório ou é uma falsa realidade, mais especificamente, assim como é retratado nos textos gnósticos. No Apócrifo de João, o mundo é uma versão bastarda do verdadeiro reino divino (literalmente uma cópia de uma cópia). A razão pela qual a humanidade sofre é por causa da natureza corrupta e retorcida do mundo em que vivemos, que é governada por demônios, bem como por governantes e governos demoníacos, conhecidos como "Arcontes". No entanto, existe também uma realidade ou Reino divino, o que significa uma divisão dualista entre nossa falsa realidade ou prisão "material", em que o ser humano está preso, e o verdadeiro mundo ou realidade espiritual em que o espírito do ser humano estava destinado a habitar.



Esta dualidade do mundo material versus o reino divino é destacada muito claramente em Shingeki No Kyojin. Quanto ao reino material, os personagens estão presos dentro de um domínio murado que está sob constante assalto de monstros demoníacos gigantes chamados "Titãs", e também está desmoronando de dentro por causa de um governo corrupto e incompetente. Quanto ao reino divino, os personagens desejam retornar ao mundo idealizado fora das muralhas da cidade.

E enquanto a violência do mundo material dá de cara no rosto do espectador, o personagem Armin Arlert sutilmente cristaliza o tema do dualismo gnóstico apresentando um livro proibido de conhecimento perdido sobre o mundo exterior, que é de fato simbólico acerca do "mundo divino". Armin e seus amigos anseiam pela liberdade de pisar fora da prisão que o ser humano está preso, e todos eles prometem explorar juntos esse mundo depois de banir todos os arcontes de seu mundo.



É também Armin que declara durante a batalha que "ESTE MUNDO É O INFERNO!" A declaração de Armin que pode parecer ao observador como apenas uma observação passageira, é de fato uma narração muito literal, pois expressa outro sentimento muito gnóstico. Os gnósticos não acreditavam necessariamente que as pessoas fossem ao Inferno quando morressem; Para eles o inferno estava literalmente já aqui conosco, como é a prisão do reino material em si.

O criador gnóstico ou Demiurgo (spoilers menores à frente)

No Gnosticismo o mundo não foi criado por Deus, mas sim por um demônio que acreditava que era Deus. Devido ao fato da deidade criadora do Antigo Testamento judaico estar tão zangada, violenta e ciumenta, os cristãos gnósticos acreditavam que não havia maneira de que ela pudesse realmente ser Deus. Ou tinha que ser um demônio que estava tão enganado que pensava que era Deus, ou simplesmente era apenas uma versão muito pobre de Deus, como o Evangelho de Felipe elabora: "Deus criou o homem. [...] os homens criaram Deus. Essa é a maneira que é no mundo - os homens fazem deuses e adoram sua criação. Seria conveniente que os deuses adorassem homens! "



À medida que avançamos no mangá, que é o material de origem, descobrimos que este mundo e suas paredes foram criadas por um rei incompetente, que pensava que ele estava unindo a humanidade, dando-lhe um inimigo comum, mas na realidade era uma condenação a uma vida de tormento nas mãos de seus Titãs. Este rei é claramente simbólico com o criador gnóstico, o demônio Demiurgo.

Também é afirmado que o rei proibiu todo o conhecimento de antes de serem presos dentro das três paredes, e a humanidade, de fato, perdeu toda a sua memória antes desse tempo. Esta é também uma imagem espelhada do pensamento gnóstico, assim como os gnósticos acreditavam que a humanidade tinha sido lançada no mundo material, que tinha perdido a memória de suas origens divinas, e que o criador tinha proibido-lhes acesso a este conhecimento, não permitindo-lhes comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, como no livro do Gênesis.



O Cristo Gnóstico e o Espírito Santo

Jesus, para os gnósticos, era mais do que simplesmente uma expiação do pecado do homem, mas também era um libertador e uma manifestação divina de Deus, enviada para libertar a humanidade do domínio dos arcontes e do demoníaco "deus deste mundo." Assim, desta forma, não vemos simplesmente Eren Jaeger morrer e depois deixar os homens para trás. Em vez disso, Eren morre e é renascido, então ele pode expulsar cada último Titã / arconte, no esforço para libertar a humanidade, para que ela possa retornar ao reino divino idealizado além dos muros.

Eren é muito claramente uma figura de Cristo, e muitos dos eventos que aparecem na série são idênticos a eventos na vida de Jesus (embora não cronologicamente). Como foi mencionado, Eren morre e renasce através de uma transformação milagrosa e seu papel principal é como um libertador. Acrescente-se que sua primeira grande vitória sobre os Titãs veio depois de levantar uma pedra impossivelmente grande, simbólica da pedra que foi rolada longe do túmulo de Cristo, permitindo-lhe deixar Seu túmulo. Eren é odiado e temido pelas mesmas pessoas que ele salva, como foi Cristo, e ele é literalmente chamado de "Salvador". Eren é julgado pelos corruptos líderes religiosos e militares por crimes que não cometeu, além de ser batido impiedosamente, como Jesus também era.



Também a personagem Mikasa Ackerman é claramente um símbolo do Espírito Santo. Os gnósticos conheciam o Espírito Santo como "Sophia" ou a encarnação da Sabedoria divina e a manifestação da divindade feminina. Mikasa e Eren são completamente inseparáveis. O relacionamento de Cristo e Sophia no gnosticismo é mais complexo, esse vínculo inseparável é simbólico nos escritos gnósticos.

Asas da liberdade

Nem tudo em Shingeki no Kyojin se encaixa perfeitamente no Gnosticismo, mas independentemente da estrutura, a religião ainda está lá. Além disso, eu aposto que existem outros muitos símbolos religiosos espalhados por toda a série. Por exemplo, há uma trindade de paredes curiosamente nomeadas, e os três principais personagens são Eren, Mikasa e Armin, que também formam uma trindade. Além disso, há toda uma série de personagens, englobando posições políticas, militares e mercantis, algumas das quais também são metáforas prováveis de coisas que eu não conheço pessoalmente.

No entanto, no meu exame da série, o último símbolo a ser abordado é realmente o mais proeminente e absoluto em toda a série, que são as "Asas da Liberdade", ou as insígnias que representam a legião de reconhecimento (que acontece de ser o grupo de pessoas que realmente têm os melhores interesses do ser humano em mente). As asas, especialmente no contexto da "liberdade" ou das forças armadas, são aquelas que uma audiência ocidental assumiria automaticamente que pertenceriam a águias ou alguma outra ave de rapina. No entanto, eu acho que é seguro assumir que, à luz da história sendo contada dentro do quadro cristão gnóstico, que elas são realmente destinados a serem asas de anjos.



Original: http://thegodabovegod.com/gnostic-jesus-attack-titan/