Yuki no Touge, Tsurugi no Mai. Dois panoramas do Período Sengoku.


Hoje o Dissidência Pop mergulha de cabeça dentro da história do Japão, mais especificamente no Período Sengoku, umas das páginas mais conturbadas e sangrentas da história do arquipélago nipônico, também sendo considerada a era de ouro dos samurais, servindo de inspiração para incontáveis obras de ficção. Neste contexto histórico se passa a história do mangá que vou analisar, Yuki no Touge, Tsurugi no Mai (Snowy Ridge, Dance of the Blade), de autoria de Hitoshi Iwaaki, o famoso autor de Parasyte. Se você gosta de mangás históricos e histórias de samurais, leia este post com atenção.

Primeiramente os dados técnicos desta obra. Yuki no Touge, Tsurugi no Mai é um mangá one-shot, ou seja, publicado em um único volume, composto por nove capítulos e serializado de 1999 até 2000. Esse não é um mangá com uma história única do começo ao fim, ele é dividido em duas narrativas distintas, como bem apontado no nome da obra, Yuki no Touge (Snowy Ridge) e Tsurugi no Mai (Dance of the Blade), ambas estórias tendo como pano de fundo o Período Sengoku, a primeira retratando um período logo após a consolidação do Xogunato Tokugawa e a segunda ainda no calor fervilhante das animosidades que marcaram a época.


Primeiro quero fazer umas considerações sobre o autor desta obra, Hitoshi Iwaaki. Notadamente ele é mais conhecido pelo seu clássico de ficção científica Parasyte, que inclusive foi publicado no Brasil estes tempos atrás. Contudo, olhando sua lista de obras, percebe-se seu gosto por narrativas históricas, em especial envolvendo personagens e acontecimentos reais, em especial, destaca-se o mangá Historie, ainda em publicação, sobre Alexandre o Grande, e o mangá Heureka, sobre o matemático da antiguidade Arquimedes. 

Sendo assim, consegui perceber ao ler um pouco da obra de Hitoshi Iwaaki seu gosto pela história e sua fidedignidade com os costumes e hábitos das épocas e lugares, tornando a leitura de seus mangás um verdadeiro exercício de história. Yuki no Touge, Tsurugi no Mai é um bom exemplo disso, pois são duas estórias baseadas em fatos e em pessoas reais, contando acontecimentos da vida de samurais famosos, de clãs influentes e até mesmo da invenção da shinai, a famosa espada japonesa de bambu para o treino de esgrima.


Devo mencionar que as duas estórias que compõe este volume são muito distintas entre si, merecendo uma análise individual apurada de cada uma. Enquanto Yuki no Touge foca mais no diálogo e em intrigas políticas, deixando a ação para curtos flashbacks, Tsurugi no Mai possui um rítmo mais acelerado, com uma boa presença de ação, com direito a um aboa quantidade de gore, como bem sabe proporcionar o mesmo autor de Parasyte.

Então vamos começar por Yuki no Touge, ou Snowy Ridge em inglês, o que pode ser traduzido como Cume Nevado. Esse título faz referência a travessia da montanha de Uesugi Kenshin, um daymio (nobre japonês), famoso por suas proezas militares, que é muito citado nesta estória, servindo como um modelo de bom governador para as futuras gerações, mesmo que eventualmente tenha cometido atitudes cruéis.


Em resumo, Yuki no Touge narra um pouco da história do notório clã Satake no final do Período Sengoku. O clã Satake, por se alinhar ao Exército Ocidental, liderado pelo rival de Tokugawa, Ishida Mitsunari, na guerra civil que acabou unificando o Japão nas mãos do clã Tokugawa, foi obrigado a se mudar para um território menor, no norte da Província de Dewa (norte de Honshu, e hoje é chamada de Akita ) no início do Período Edo.

Assim, Yuki no Touge narra as desventuras do clã Satake, liderado na época por Satake Yoshinobu. O principal objetivo depois do desterro do clã Satake era construir um novo castelo na Província de Dewa. O problema surgiu na discussão de onde deveria ser construída a nova fortaleza que serviria para ser a nova sede do Clã. Essa discussão é justamente o ponto chave da narrativa. Além da problemática de achar um local ideal, o que não era nada fácil, já que na época dependeria de uma aprovação direta do Xogum Togugawa, havia um embate de ideais entre os conselheiros do daymio.


Essa discussão entre os conselheiros surgiu pelo fato de Yoshinobu Satake passar a dar mais ouvido aos conselhos de seus jovens vassalos, causando ciúme aos seus homens mais experientes. O que se inicia como uma mera disputa de ideias no âmbito político, toma proporções muito maiores quando a velha guarda do clã Satake decide fazer qualquer coisa para defender o seu lugar na corte do daymio, mesmo que isto signifique conspirar contra os seus opositores, em especial contra o jovem Naizen.

Como pode ser observado, Yuki no Touge se resume a um embate de gerações. O que é mais importante? A experiência dos velhos homens de guerra que lutaram ao lado de seu líder, ou as ideias dos jovens, com as mentes frescas e direcionados para uma nova mentalidade, mais estrutural do que belicista? Os mais velhos deram a sugestão para a construção do castelo baseado em táticas defensivas, como se esperassem novas guerras a qualquer momento. Já Naizen sugeriu um local relativamente perto do mar, onde o castelo poderia ter um controle das áreas agrícolas e do comércio marítimo, visando o desenvolvimento econômico do clã a longo prazo.


Yoshinobu Satake era um líder sábio, mas dependia dos conselhos de seus súditos, ainda mais por ter sua capacidade de decisão questionada quando preferiu apoiar o opositor de Tokugawa, o que custou a perda de suas terras natais. Entretanto, esta decisão pode ter sido mais sábia do que todos pensam, talvez ser aliado de Tokugawa também não se mostrasse algo vantajoso, visto que o clã Satake era muito poderoso e estava exatamente na fronteira do clã Tokugawa. Ainda assim, a palavra de Yoshinobu Satake deveria escolher a nova localização do castelo.

As artimanhas dos grupos rivais para tentarem valer as suas vontades são dignas de nota, pois além do desejo do daymio Yoshinobi Satake, era necessário convencer o próprio xogum Tokugawa, que não estava muito disposto a ser bonzinho com um clã que recentemente lutou contra ele. Era mais fácil ele escolher a segunda do local para construção do castelo do que a primeira, só para o clã Satake não contar com a melhor localização.


A segunda parte desta história foca na construção do castelo propriamente dito, desde o preparo do terreno até a construção. Mesmo depois de decidir o local de construção do castelo, que não vou revelar aqui para não dar spoilers, as confusões e armações não pararam por aí. Parece que intrigas e disputas de popularidade e prestígio nas cortes são as coisas mais normais em âmbitos políticos, não importando o local e nem a era.

Yuki no Touge é uma estória introspectiva e lenta (não que isso seja propriamente um defeito), focando mais em conversas do que em ações. A maioria das cenas se dá entre os personagens conversando no salão do daymio. Mas não pensem que não haja nada além disso, a ação se dá no ponto de vista político. No entanto, devo admitir que essa história pode ser um pouco maçante e difícil de acompanhar caso não se preste bem atenção, não sendo recomendável aos amantes de mangás de ação com muitos combates e violência.


O mais interessante desta estória é justamente perceber as nuances do embate de gerações movido primariamente pelo ciúme, visto que caso todos cooperassem o resultado seria muito melhor. Diante deste contexto político se desenvolve Yuki no Touge. Mesmo que não haja personagens memoráveis nem muito bem desenvolvidos, o enredo evolui dentro do que propôs abordar, uma parte importante da história de uma das famílias mais poderosas do Japão.

Essa estória também é muito interessante por mostrar certos aspectos históricos que comumente não vemos em obras de ficção, especialmente mangás, como detalhes técnicos da construção de um castelo japonês. Os castelos japoneses tinham que ser muito bem pensados, com vários níveis de muralhas e portões, presando sempre por uma boa localização. No final do período Sengoku, deu-se uma importância maior a uma arquitetura militar que privilegia-se o uso de armas de fogo, que já estavam sendo popularizadas entre os exércitos. Esse mangá é uma verdadeira lição de história.


Todos estes aspectos fazem de Yuki no Touge uma estória interessante. Parece que estamos diante de um daqueles documentários históricos, onde os eventos são mostrados por meio de atores interpretando as cenas, a fim de conferir um maior entendimento, além de servir como um atrativo para quem estiver assistindo. Yuki no Touge é assim, um verdadeiro documentário em versão de mangá, perfeito para os fãs de história.

Agora vou escrever um pouco sobre a outra estória do mangá, Tsurugi no Mai, Dance of the Blade em inglês, o que pode ser traduzido como Dança da Espada. Tsurugi no Mai rompe com o ritmo lento de Yuki no Touge, apresentando um enredo repleto de violência e drama, tendo como pano de fundo a temática da vingança. Essa estória também é notável pelas suas cenas de ação bastante sanguinolentas, com pedaços de corpos para tudo quanto é lado.


Como dito no começo deste texto, Tsurugi no Mai se passa no período Sengoku, onde conta a história de Haruna, a filha de um casal de agricultores. Pelo infortúnio do destino, a vila é atacada por um grupo de samurais que sequestram Haruna e a estupram coletivamente de maneira extremamente violenta. Ela consegue fugir levando uma bolsa de ouro dos agressores, quando chega em casa descobre que eles haviam matado e esquartejado toda a sua família. Enredo pesado né?

Motivada pelo desejo de vingança, Haruna nutre o desejo de aprender o manuseio da espada. Para tanto, pretende utilizar o dinheiro furtado dos criminosos. Ela visita o dojo do famoso e renomado espadachim Nobutsuna Kamiizumi, considerado o maior espadachim da época, para aprender kenjutsu. Só para mencionar, Nobutsuna Kamiizumi existiu de verdade e foi um dos maiores praticantes de kenjutsu da história, a ele também foi creditada a invenção da shinai, a famosa espada de bambu utilizada nos treinamentos.


Haruna não pretende aprender kenjutsu diretamente com o mestre Nobutsuna Kamiizumi, em sua modéstia ela se contentara em abordar um de seus discípulos, Hikita Bungorou, que por sinal, também foi um grandioso espadachim da história do Japão. Bungorou inicialmente reluta em ensinar Haruna, principalmente pelo falo dela ser mulher, depois pelo fato de que a machucaria com a espada de madeira utilizada no treinamento.

O mestre Nobutsuna Kamiizumi, encantado pela força de vontade de Haruna, força Bungorou a ensiná-la, resolvendo o problema do medo dele machucá-la com a aplicação de uma de suas invenções, a shinai, que por ser feita de bambu, era leve e evitava machucados desnecessários. Haruna se mostra desajeitada, mas com o tempo passa a melhorar as suas habilidades. Mesmo antes que estivesse totalmente treinada, o castelo onde realizava o treinamento seria atacado pelo mesmo exército onde lutava seus agressores, desta forma, ela teve que encarar o seu destino.


Tsurugi no Mai é uma típica história de vingança, onde a pessoa injustiçada busca um meio de se vingar de seus agressores. Este tipo de história é bem manjada, mas mesmo assim sempre acaba convencendo, já que é um tema que geralmente proporciona emoções fortes e um drama acentuado. Tsurugi no Mai se difere das muitas estórias envolvendo este tema pelo fato de ser ambientada em um contexto real, dentro de uma situação muito verossímil de ter acontecido, pelo menos no caso do estupro, já que uma mulher aprender kenjutsu naquele período do Japão era bem difícil de acontecer.

Também destaco que estamos falando de uma tragédia, então não procurem um final feliz. Mesmo assim, a relação entre Haruna e Bngorou como personagens se desenvolve de uma maneira que pode ser considerada além dos limites impostos ao mestre e à aprendiz, mesmo que não haja nenhum ato concreto neste sentido, apenas havendo insinuações que pairam no ar. Tsurugi no Mai é uma história cruel, mas bonita, mesmo tendo a vida destruída, Haruna não perde suas convicções nem sua coragem, não fugindo da batalha. Tsurugi no Mai pode ser considerada uma obra agridoce.


Deixando um pouco a relação entre os personagens de lado, destaca-se desta estória as cenas de batalha. O traço de Hitoshi Iwaaki é limpo e sem muitos detalhes de fundo, que geralmente são brancos ou muito simples. Entretanto ele compensa com os detalhes nos personagens e nas cenas de luta. As armaduras são muito bem desenhadas, as armas idem, mas o que mais chama a atenção é a qualidade das cenas de luta, e claro, no gore para dar e vendar, partes de corpos pra lá e pra cá são coisas comuns.

Assim, Tsurugi no Mai é uma história consistente, com uma boa dose de drama, romance a ação. O final não é feliz, mas interessante, e cumpre o que promete. Outro tema desta estória que dever ser reverenciado, é que além de uma história de vingança, Tsurugi no Mai é uma peça histórica que mostra o desenvolvimento da shinai e sua aplicação na época, como um invento que propiciou a popularização do ensino do kenjutsu, e sua evolução de uma arte exclusivamente voltada para a guera para uma forma de esporte e desenvolvimento pessoal. Desta forma, Tsurugi no Mai agrada tanto os amantes de história como os apreciadores de um bom drama histórico.

Acho que já disse tudo que tinha para dizer deste mangá. As duas estórias que o compõe possuem muitos personagens interessantes, sendo muitos existentes na realidade, servindo esta obra como um retrato, embora romanceado, da história do Japão. Por ser um mangá curto (um volume apenas), a leitura é rápida, apresentando um contraste em as duas estórias, onde uma é lenta e com pouca ação e outra é corrida e sangrenta. Este é um mangá muito recomendado para quem gosta de histórias de samurai e para aqueles que apreciam o trabalho de Hitoshi Iwaaki.