Ponko Of The Stars And Reiko Of The Tofu Shop. Muito cuidado com as aparências.



Ao olhar o título deste mangá e a foto de capa, é possível que você pense que Ponko Of The Stars And Reiko Of The Tofu Shop se trate de um mangá infantil, dos muitos os quais os protagonistas encontram criaturas fofinhas e vivem diversas aventuras com o poder da amizade. Mas nem tudo é o que parece. Depois de nos acostumarmos em não confiar em qualquer ser bonitinho que aparece por aí (vide Puella Magi Madoka Magica), esse tipo de narrativa "engana-trouxa" que rompe com as expectativas não é mais uma novidade. Entretanto, mesmo neste nicho há espaço para criatividade, como no caso de Ponko Of The Stars And Reiko Of The Tofu Shop.

Como nem só de obras sérias como Ghost in the Shell ou Serial Experiments Lain vive a ficção científica, também há espaço para a humor e coisas absurdas, tal é o caso de Ponko Of The Stars And Reiko Of The Tofu Shop. O título por si só é bizarro o suficiente para que o leitor ache a obra no mínimo inusitada, e a sua leitura serve justamente para reforçar essa primeira impressão. Ao contrário do que acontece no famoso Puella Magi Madoka Magica, que um enredo aparentemente infanto-juvenil se desenvolve em uma trama melodramática, o mangá aqui analisado se direciona para uma abordagem voltada ao humor negro.


Ponko Of The Stars And Reiko Of The Tofu Shop é um mangá one-shot, publicado de agosto a outubro de 2013, possuindo apenas três capítulos, o que faz deste um mangá bem curto. O título original em japonês é Hoshi no Ponko to Toufuya Reiko. Foi publicado na famosa revista seinen Afternoon (Vinland Saga, Blame!, Parasyte, Blade of the Immortal, Eden: It's an Endless World!, entre outras.). Este mangá possui uma autoria dupla. Quem ficou responsável pelo enredo foi Shinji Ohara, e o responsável pela arte é Tony Takezaki.

Tony Takezaki, para quem não lembra, é o criador de alguns clássicos da ficção científica cyberpunk repletos de gore dos anos 90, como Genocyber e AD Police. Já Shinji Ohara, responsável pelo enredo do mangá, é mais conhecido por ser o autor da obra Nijuu Mensou no Musume (The Daughter of Twenty Faces), que ganhou um anime pelo estúdio Bones em 2008. Como deu para perceber, ambos os envolvido possuem experiência em ficção científica. É curioso ver como um autor de clássicos cyberpunk  dos anos 90 trabalho em uma obra de humor negro tão bizarro.


E do que diabos se trata este mangá? Não dá para falar muito da estória sem dar spoilers, já que ela é curta e em cada um dos três capítulos há reviravoltas no enredo bem repentinas, mas vou tentar descrever este mangá da melhor maneira possível. Ponko Of The Stars And Reiko Of The Tofu Shop possui uma sinopse simples, mas que já dá ao leitor uma tênue ideia de que algo não está certo. Reiko e seu irmão mais novo, de maneira totalmente casual, encontram uma estranha criatura que parece um alienígena, um misto de gato e morcego, que sempre diz "pon" no final de suas frases.

Esta criatura acaba acompanhando os dois até em cada, e para a surpresa dos irmãos, ela revela ser uma comerciante intergaláctica, que estava visitando a Terra para vender tecnologias avançadas em troca de uma substância chamada hahise, que por sinal, é abundante na Terra. Reiko e seu irmão acabam ajudando a criatura, que parecia cansada e faminta. Inicialmente, eles não deram muita bola para o fato da criatura vender alguma coisa, já que estavam mais preocupados em manter Ponko como um bichinho de estimação, tendo o trabalho de escondê-la de seus pais.


Ponko acaba adorando o Tofu geometricamente perfeito dos pais das crianças, além de amar desesperadamente os rolinhos de ovos da mãe deles. Depois de restabelecido com essas delícias, o ser oferece um negócio aos irmãos, um dispositivo capaz de duplicar qualquer coisa que for inserido nele, inclusive dinheiro. Mas como diz o velho ditado, "o que vem fácil, vai fácil", e é preciso desconfiar de ofertas tão tentadoras. Ignorando qualquer temor que poderia possuir, os irmãos acabam aceitando a oferta do alienígena.

É rapidamente estabelecido que há algo sobre Ponko que não está certo. A criatura, depois de ouvir que o restaurante de tofu dos pais de Reiko e do irmão não ia bem financeiramente, tentou oferecer um negócio, mas logo percebeu que o estabelecimento comercial não seria capaz de se adaptar à tecnologia alienígena, além do fato deles não terem mais dinheiro. Entretanto, Ponko afirma que eles podem obter alguns de seus itens em troca de hahise. Ponko parece desejar o tal do Hahise como se fosse uma droga, e até afirma que a Terra "é abundante do grande hahise".


Reiko devia ter perguntado do que se tratava o tal do hahise, mas foi tarde demais.Tal acontecimento faz a vida de Reiko mudar completamente, tomando uma direção muito mais obscura, igual a do mangá que se torna uma estória de horror. O mangá não perde tempo em revelar a verdadeira natureza das coisas. O leitor mais desavisado pode se enganar, pensando que a história se trata de algo leve e despretensioso, enquanto na verdade  é um mangá bastante repugnante!

Basta olhar a capa completa do mangá para perceber que algo não está certo com a estória. Contrastando com a imagem da capa onde as crianças e o alien aparecem, que não revela nada de perturbador, basta olhar a contracapa e as orelhas, onde respectivamente são representadas a protagonista, um pouco mais velha, deitada no meio de muito lixo e a mesma garota urinando em uma garrafa enquanto usa o computador! Claramente fazendo uma referência ao fato dela ser uma hikikomori, que são aquelas pessoas que vivem trancadas em seus quartos.


Claro que a intenção do autor foi justamente implicar que toda a situação inicialmente apresentada no mangá seria uma farsa, não escondendo isso em nenhum momento, já que está estampado até mesmo na capa. As coisas acontecem muito rápido e em cada capítulo há uma mudança drástica na história, dando um foco diferente. Eu queria muito falar mais sobre o enredo e as coisas bizarras que acontecem neste mangá, mas é impossível sem praticamente contar tudo que ela tem de interessante. Então espero que com o que já disse seja suficiente para atiçar a curiosidade do leitor.

Ponko Of The Stars And Reiko Of The Tofu Shop é repleto de situações completamente bizarras, como a ideia genial de Reiko em recrutar pessoas na internet para invadir uma residência de um líder da Yakusa, oferecendo dinheiro e sua virgindade. O mais incrível é que ela realmente consegue montar um exército particular com essa oferta! Esse mangá é tão curto mais tão cheio de situações bizarras aleatórias que poderia ser extremamente irritante caso fosse mais longo, mas como não é, se trata de uma experiência interessante.


Essa estrutura caótica de Ponko Of The Stars And Reiko Of The Tofu Shop é tanto o seu diferencial como o seu maior problema. As reviravoltas do enredo são tão repentinas, drásticas e numerosas para uma obra tão curta que me fizeram sentir um tanto deslocado enquanto lia o mangá. Entretanto, o final do mangá foi muito bem bolado, conseguiu fechar a estória de modo satisfatório, sem deixar pontas solta aqui e ali. Os personagens, mesmo com o pouco tempo que se tinha para desenvolvê-los, foram bem trabalhados, sendo fácil simpatizar com eles.

Ponko Of The Stars And Reiko Of The Tofu Shop, além de ser um amontoado de bizarrices, também tenta passar uma mensagem, a de que alienígenas são incapazes de entender a verdadeira natureza humana. O que para eles pode parecer justo, é inadmissível do ponto de vista moral e social. A mesma coisa que pode ser vista em Puella Magi Madoka Magica com a racionalidade extrema de Kyubey, o qual possuía intenções boas para o universo, mesmo que isso significasse dor e sofrimento para as meninas terráqueas.


De qualquer forma, Ponko Of The Stars And Reiko Of The Tofu Shop possui o seu diferencial, sendo algo mais do que uma típica estória "engana-trouxas", que aparenta ser uma coisa e acaba se mostrando outra, como no já citado anime Puella Magi Madoka Magica, e Shadow Star Narutaru de Mohiro Kitoh, onde também há parceiros alienígenas fofinhos, mas que o enredo se torna cada vez mais sombrio e sangrento. Ponko se diferencia pelo seu humor negro e montagem acelerada, onde cada capítulo, mesmo se tratando de uma única estória, possui um desenvolvimento próprio, com o seu próprio plot Twist.

Quanto aos aspectos de arte do respectivo mangá, posso dizer que tanto o character design como os ambientes não são estupendos, mas são bem dinâmicos e razoáveis, longe de ser um ponto negativo. Destaque para a forma humanizada da Ponko. Aparentemente, Tony Takezaki é hábil em utilizar traços borrados, digo isso mesmo que em cenas de ação eu não aprecie este tipo de arte, que geralmente torna o desenho um pouco menos compreensível. Fora essas considerações, não há mais nada para dizer sobre a arte de Ponko Of The Stars And Reiko Of The Tofu Shop.


Só para finalizar posso descrever esse mangá como surpreendente, divertido e completamente insano. Mesmo que o primeiro capítulo faça parecer que a estória é muito previsível, o segundo e o terceiro capítulos estão cheios de reviravoltas. Acho que Tony Takezaki e Shinji Ohara formaram uma dupla e tanto, demonstrando uma grande criatividade na execução desta obra. Seria muito interessante caso os dois viessem a trabalhar juntos novamente. Gostaria de saber como se virariam em uma obra mais longa do que os poucos três capítulos Ponko Of The Stars And Reiko Of The Tofu Shop.

Se você achou o que eu escrevi e a premissa deste mangá minimamente interessante e gosta de ficção científica bizarra, recomendo sua leitura, já que por ser um mangá brevíssimo (acho que não chega a 150 páginas), você acaba a sua leitura em pouquíssimo tempo. O mangá tem seus problemas, como eu já apontei, mas as vantagens em lê-lo superam muito os problemas de execução e de enredo. Gostaria de falar mais sobre essa obra, mas tudo que eu acrescentaria seria spoiler, assim sendo, fico por aqui e espero que apreciem este post.